Meu hype passou.

Era esperado. Não lamento.
O preço de tentar se manter num topo imaginário de relevância é alto demais.

Eu levo uma vida muito simples.
O importante pra mim é o essencial, não é o supérfluo.

É frustrante e muito revoltante perceber que, muitas vezes, o pagamento de um trabalho vira investimento pro próximo. Quando eu adaptei Quarto de Despejo para quadrinhos, um terço do que recebi investi num iPhone.
E depois disso, não fiz nenhuma publi que pagasse esse iPhone.

Em 2024, meses depois que o comprei, cheguei a anunciar ele na OLX diante da necessidade extrema que eu estava passando.

Nas redes, é “juntas somos mais fortes”, “ninguém solta a mão de ninguém”, “tamo junto, irmão, irmã preta”. Mas na vida real, quando você precisa de ajuda, não basta só pedir, você precisa se humilhar.

Em várias viagens a trabalho para os eventos dos livros, eu ia com a roupa do corpo e comprava alguma coisa para usar quando chegava na cidade. Nada caro, roupas de loja departamento para aparecer mais arrumadinha. Quase todas essas roupas eu vendi porque estava precisando de grana.

Ainda nesse ano, eu tive a revelação de uma — hoje ex — amiga que, mesmo ciente de tudo que eu estava enfrentando, não moveu um real de uma dívida que, até hoje, não pagou.

2024 foi um dos piores anos da minha vida. Hoje sinto que minha vida foi virada do avesso e de cabeça para baixo. E algumas pessoas tinham que sair para eu caminhar.

Nos últimos anos quem se aproximou fingindo amizade, tentando pegar carona numa suposta ascensão social minha… já se afastou. E não apenas isso, mas também queimou oportunidades para mim para garantir o cantinho delas. O “Ubuntu midiático” de muitos militantes pretos, acaba na primeira chance de puxar o tapete e fazer da cabeça de qualquer preto um degrau.

Afinal, para existir topo, precisa ter base.

O saldo do hype?

Reafirmar, mais uma vez, que não existe linha de chegada para mulheres negras.
Lembram daquela cena no filme “Estrelas além do tempo”? A personagem da Janelle Monaé fala:“toda vez que temos a chance de avançar, eles mudam a chegada.”

Eu tenho uma prateleira de prêmios que certificam toda a minha capacidade e intelectualidade — prêmios que em outras mãos seriam a garantia de entrada e permanencia em espaços — mas nas minhas não valem nada, e sou constantemente menosprezada. Seja com propostas para eu pagar para trabalhar,
ou com escopos gigantes de publis por menos de um salário mínimo.

O mito da oportunidade única é uma das mentiras mais bem contadas que existem. A ideia de que basta uma única oportunidade pra alguém mudar de vida, vencer e quebrar ciclos da família. Mas quando essa oportunidade chega, encontra pessoas sem as ferramentas. Sem o conhecimento. Sem o tal capital social, cultural ou financeiro para sustentar essa virada.

Algumas das minhas seguidoras mais antigas lembram dos vários mutirões que fiz para marcar nos comentários o @ de empresas de tecnologia. Mutirões na esperança de que alguma se solidarizasse a me doar um celular seminovo ou um notebook para trabalhar. E é num notebook doado pela Intel/Dell que escrevo e trabalho até hoje.

Oportunidade sem ferramenta + o discurso que basta se esforçar, é o mesmo que doar a tábua e os pregos e dizer para uma pessoa “martelar” os prego com a palma das mãos.

Eu nunca contei isso antes, mas com o adiantamento de Confinada, em 2020, eu comprei um colchão. Um colchão. Porque minha coluna não aguentava mais a espuma que eu estava dormindo e meu estômago não aguentava mais tanto analgésico.

O pouco de dinheiro que entrou entre 2020 e 2023 eu investi na minha casa.
Troquei janelas pequenas que não circulavam ar, resolvi problemas elétricos porque no lançamento ao vivo e on line de Confinada deu um curto na caixa de luz e eu “caí” da live. Passei meses morrendo de vergonha disso (mesmo sem contar para ninguém), porque não dá para aproveitar uma oportunidade quando você não tem onde dormir direito. Quando a luz pisca quando você liga alguma coisa ou você tá respirando mofo.

Eu investi no mínimo.

No básico.

No essencial do meu bem-estar para recuperar as forças para prosseguir.

Para quem cresceu tendo tudo garantido pelos pais, essa realidade parece um filme de fantasia. Mas para quem teve que construir o próprio quarto, é largar 100 anos atrasado na vida.

Eu levei muito tempo pra dizer em voz alta: Eu sou artista.
Eu escrevo. Eu invento mundos. Eu crio personagens e as histórias que eles vão viver e te levar com eles. Mas como todo artista, existe um momento de visibilidade… e ele passa. E passa muito mais rápido quando você é um artista negro e/ou periférico.

Mesmo com dois livros recém-lançados, minha primeira vez na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty – foi como turista ficando no airbnb com o meu amigo. As pessoas me paravam pelas ruas, pediam fotos e autógrafos, perguntavam onde seria minha fala e eu respondia que estava lá a passeio.

Meu hype passou enquanto eu ainda estava no hype…

Você sobe a montanha, vê a vista, sente o vento, toma um fôlego de ar puro...e desce para subir outra montanha, como disse Lauryn Hill.

E nessa caminhada vai enfrentando, pedras afiadas de solidão e os espinhos do egoísmo das pessoas. Eu aprendi a pegar na mão de quem estende a mão para mim, e a soltar a mão de quem finge colocar a máscara de oxigênio em mim depois de já ter cortado o suprimento de ar.

Pois é. Tá osso.

Sempre foi ruim. Mas hoje tá muito pior.
As pessoas aprenderam a performar um espantalho de amor próprio para justificar seu ultra individualismo.

Então não se espante…

Se um dia voce me ver divulgando casa de aposta, ou quando você pedir um lanche e quem estiver se recusando a subir até seu apartamento for eu. Ou se você chamar um Uber indo para uma festa e eu estiver atrás do volante, assim como o ator Alexandre Rodrigues que interpretou o personagem Buscapé no aclamado Cidade de Deus, que em 2018 dirigindo um Uber foi reconhecido por uma passageira. Em entrevista ele disse: Precisava sustentar minha família. Será que ele não se esforçou o suficiente? Será que aquela única oportunidade no filme bastou? Na verdade, bastou para a coadjuvante Alice Braga. Por que será né?!

Não existe demérito em dirigir Uber. Nem em fazer entrega. Ou no caixa de supermercado. Ou fazendo faxina.

O demérito é pregar que qualquer uma dessas pessoas, se trabalhar duro, vai chegar no mesmo patamar que o dono da empresa.

Isso sim deveria ser vergonha.

Não quem já teve sucesso um dia e escolheu a paz de viver com dignidade ao invés de perseguir um padrão inventado de luxo e ostentação, se endividando, correndo numa rodinha de hamster sem sair do lugar.

Porque, socialmente falando, o contrário de pobreza não é riqueza.

É dignidade.

E uma vida digna não precisa de milhões investidos para viver de renda. Ou coleções de joias, relógios ou bolsas caras.

Uma vida digna se constrói com qualidade de vida. Pessoas verdadeiras e tempo de qualidade com elas. Fim de uma escala escravocrata de trabalho.
E um salário-mínimo que não obrigue ninguém a escolher entre pagar as contas…ou comer.

Meu sonho de vida é dignidade.

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Bloqueios sociais são bloqueios afetivos.